Terça-feira, Janeiro 01, 2008

Almiro Lobo

O meu livro "Almadiando as palavras", do qual constam poemas daqui e textos com Maria e João deste blogue, lançado em Fevereiro de 2007, teve o seguinte prefácio de Almiro Lobo:
A relação produtiva que um olhar independente pode engendrar enquista-se nos interstícios da tensão entre uma leitura consentida e aqueloutra que se pretende nova e original. Vem isto a propósito da dificuldade de libertar o Prefácio da Introdução (feita pelo autor dos poemas). Mas o propósito da libertação, da construção de uma leitura original é quimérico: Almadiando as Palavras é, em certo sentido, o hipertexto de Em cada Ti de Mim, primeiro livro do escritor. A relação intertextual, que se adivinha na construção desta obra, adensa-se (vide “Búzio de Ti”).
Este livro de Carlos Serra é herdeiro de uma tradição complexa: recupera um lirismo arquetípico, afirma-se inspirado em Garcia Marquez e dialoga com a sua própria escrita. Este (auto) diálogo, espécie de leitura intro e retrospectiva, faz-se no bojo da inscrição de uma isotopia da natureza cujo leitmotiv é o rio Zambeze, com capital simbólico acrescentado, e da exibição de uma deliberada atitude de subversão da linguagem (recriando-a, reinventando associações inesperadas, violando as fronteiras da convenção, instaurando novos sentidos e conferindo horizontes outros às palavras). É uma tensa convivência entre o “já feito” e a irrupção do novo. E o novo faz-se pela reconversão da Utopia em “sonho que dia a dia se realiza” (vide “Utopia”), pela inscrição de um tempo hipotético e pela construção de Salmos de Livros imaginários que caucionam as narrativas das vidas de Maria e João. Como diria Roman Ingarden, “[...] do mesmo modo que o ser vivo se transforma em relação com a vida de outros vivos e sob a influência das condições reais em que ele se encontra nas várias fases singulares da sua vida, também as mutações nas concretizações da obra literária se processam em estreita conexão com a vida de indivíduos psiquícos e sob a influência da atmosfera cultural”[1].
O sujeito poético adopta, tal como o fizera na obra anterior, Em cada Ti de Mim, uma atitude professoral ao orientar a nossa leitura, ao formatar a nossa atitude hermenêutica, recuperando uma atitude pedagógica clássica. Aqui, as máximas (re)criadas, emoldurando a relação amorosa entre Maria e João, funcionam como didascálias de uma outra actividade igualmente propulsora de significados: a leitura. Há, portanto, um compromisso de escrita que vai, supostamente, condicionar ou influenciar o acto de leitura.
Numa e noutra obra, o sujeito poético insere-nos numa tradição antiga que celebra o amor enquanto busca, entrega e comunhão, uma tradição que coloca a mulher no centro do universo, que a elege como objecto privilegiado da relação amorosa. O elemento feminino funciona aqui como texto, como o logos que cauciona a relação do sujeito com o mundo. É o lugar da regeneração humana. O sujeito poético inscreve uma bio-grafia (no sentido de grafia da vida do feminino), investe sobre o texto, completa-o, por vezes como um deus (vide “Dois gomos”). O corpo feminino é metáfora, é objecto de desejo.
Aparentemente tautológico, o desejo pelo corpo feminino é também a projecção do desejo pela perfeição do texto. E essa perfeição seria assegurada pela intromissão, pela arte do sujeito que ama. O texto seria, paradoxalmente, feminino e a escrita desse texto seria masculina. A escrita do texto é, assim, um acto de amor.
Se já afirmamos que a mulher é texto, agora parece-nos justo que a consideremos também pretexto. É pretexto para a confluência de uma atitude ética: a reivindicação de um espaço matricial, o Zambeze, o Índico, e a exaltação de uma nova humanidade biológica e culturalmente miscigenada. O mundo parece dever rever-se nas águas do Zambeze. O Zambeze é um deus e as suas águas adquirem uma dimensão humana.
O manifesto poético já inscrito em “Poemar-te” (Em cada Ti de Mim) adensa-se e revela-se, assim, um programa totalizador: é Amor pela História, pela Cultura, pela Natureza, pela idiossincrasia e pelo imaginário moçambicanos. Mas é, sobretudo, a sublimação do Amor.
Almiro Lobo
Maputo, 20 de Dezembro de 2006
[1] A obra de Arte Literária, 2ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979, pp. 385.

1 Comments:

At Quinta-feira, Janeiro 03, 2008 10:14:00 PM, Blogger Ivone Soares said...

Que saudades do meu prof. Almiro Lobo. Ilustre, para quando o próximo livro? Bjhs,
Ivone

 

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